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O SHOW TEM QUE CONTINUAR???

O SHOW TEM QUE CONTINUAR???
Joguei futebol até os meus 19 anos. Tinha o sonho de me profissionalizar e viver do futebol. 
Mas, com um 173 cm de altura, querer ser goleiro profissional, era um pouco de abuso da minha parte. E, para ser sincero, eu não era bom o suficiente. 
Mas esse período deu para ver muita coisa. Tanto nos clubes que convivi no dia a dia, quanto naqueles em que pude conhecer durante os campeonatos. 
E, nessas andanças, estranho que uma tragédia como essa, que aconteceu com os jovens atletas do Flamengo, tenha ocorrido somente agora. 
Reforço (como já comentei em textos anteriores) que as lideranças do nosso país têm demonstrado um belo desapego por cuidar do que é estruturante. 
Os objetivos de curto prazo, o foco quase exclusivo nas atividades fim, e a estranha mania de sempre deixar para depois as iniciativas relacionadas às questões mais básicas, fazem com que o retrabalho seja marca registrada.
Não é incomum, em empresas de diferentes países, diretores concentrarem fortemente os esforços (e investimentos) em uma única área (comercial, por exemplo), e claramente se esquecerem de cuidar das áreas de suporte (sem as quais, nada acontece de forma sustentável). 
Se descuidam da base. E, como consequência, ficam fragilizados.
Quando esses assuntos estruturais vêm para a mesa de discussão, tem sempre outra prioridade que ganha a preferência.
O tempo passa, o tempo voa, e as práticas seguem as mesmas.
Assim como neste triste, amargurante e comovente caso com os atletas do Flamengo, ocorrências mais leves do ponto de vista humano, mas com as mesmas características do ponto de vista da gestão, acontecem diariamente dentro das iniciativas pública e privada.
No caso de Brumadinho, quase toda atenção se volta para uma única empresa. Mas aqui, muito além das responsabilidades que devem recair sobre o Flamengo, elas devem também recair sobre a estrutura do futebol.
Estes problemas são escancarados por todos os lados. Especialmente, considerando que o Flamengo está entre os dois ou três clubes com melhor condição financeira, imaginemos o que pode ocorrer no restante das cidades e clubes brasileiros.
Uma pergunta aqui: será que as partes interessadas e suas lideranças (empresários, mídia, diretoria dos clubes, patrocinadores, governos, órgãos reguladores, CBF, federações regionais, entre outras) não tinham esse diagnóstico?
Porque, se tinham conhecimento e seguiram com o show mesmo assim, cabe a discussão das responsabilidades de uma forma mais distribuída.
Será que teremos uma interdição coletiva das milhares de estruturas que abrigam atletas amadores (e inclusive profissionais) nesses alojamentos pelo país?
Muito provavelmente, em algum nível, aconteceria uma paralisação do futebol.
Será que as partes interessadas "deixariam" isso acontecer?
Ou o show tem que continuar?